Troca no comando da Polícia Civil do ES ocorre em meio a denúncias e escândalo de corrupção na corporação

Governador Ricardo Ferraço anunciou a saída de José Darcy Arruda nesta sexta-feira (3), alegando razões de saúde e a proximidade da aposentadoria do delegado

Delegado-geral da Polícia Civil do ES, José Darcy Arruda. Crédito: Sesp
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A troca do delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, José Darcy Arruda, anunciada pelo governador Ricardo Ferraço nesta Sexta-Feira Santa (3), acontece em meio a denúncias de escândalos. O governador afirmou que o afastamento de Arruda ocorre por “razões de saúde e pela iminente publicação de sua aposentadoria”. A primeira agenda oficial de Ferraço após o anúncio será uma reunião com a cúpula da Segurança Pública do Estado neste sábado (4), segundo informado pela assessoria do governador.

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Até o momento, não se tem conhecimento de nenhuma investigação instaurada contra Arruda, mas o delegado viveu, no fim de sua gestão, a maior turbulência de crises na corporação em toda a sua carreira.

A reportagem teve acesso ao pedido de demissão de Arruda (leia na íntegra mais abaixo). Nele, Arruda diz que deixa “a instituição estruturada, fortalecida e equipada, com importantes investimentos realizados em tecnologia, inteligência investigativa e valorização profissional”.

Arruda também diz que está com câncer. “A presente decisão também se impõe por razões de saúde. Após já ter enfrentado, ao longo da vida, cinco diagnósticos de câncer, fui novamente acometido pela doença e serei submetido a procedimento cirúrgico no próximo dia 10. Neste momento, é necessário priorizar o tratamento e a recuperação, com a serenidade e a dedicação que o quadro exige”, informou, por nota.

A crise na cúpula da Polícia Civil ganhou um novo capítulo com a revelação de que o agora ex-delegado-geral, José Darcy Arruda, foi denunciado à Polícia Federal por suspeita de coação a testemunha. A notícia-crime, apresentada pelo delegado Alberto Roque Peres e confirmada pela Rede Notícia, aponta que o chefe da instituição teria agido para intimidar o subordinado após este colaborar com uma investigação federal. O documento enviado à PF e ao Ministério Público pede a apuração de crimes como abuso de autoridade, prevaricação e obstrução de investigação de organização criminosa.

O embate institucional tem origem em um depoimento de Alberto em uma apuração da Polícia Federal, cujos detalhes foram expostos em rede nacional. Na ocasião, o delegado confirmou informações de um detido que apontava um investigador da própria Polícia Civil como uma peça-chave no tráfico de drogas do estado. A denúncia sugere que, após a divulgação do caso, Arruda teria quebrado o sigilo da investigação ao citar o nome de Alberto em entrevistas e ao determinar a abertura de um procedimento na Corregedoria para apurar a conduta do colega, o que foi interpretado como uma clara retaliação.

A defesa do delegado Alberto sustenta que as ações do comando da PCES representam uma reação direta à colaboração com as autoridades federais, indo contra a proteção de testemunhas e a integridade das apurações da União. O histórico apresentado na denúncia indica que indícios de irregularidades envolvendo o policial citado no depoimento — que atuava no Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc) — já eram comunicados à administração da Polícia Civil desde 2017, mas que o agente teria continuado a interferir em operações mesmo após períodos de afastamento.

Por outro lado, José Darcy Arruda nega qualquer intenção de coagir o colega ou interferir nos trabalhos da Polícia Federal. Segundo o ex-delegado-geral, a convocação de Alberto à Corregedoria teve como único objetivo solicitar a apresentação formal dos documentos e provas mencionados no depoimento federal, os quais a instituição ainda não teria localizado em seus arquivos internos. Arruda justificou que muitos registros antigos eram feitos em papel e que determinou uma busca física em caixas arquivadas para entender por que as investigações anteriores sobre o policial do Denarc não avançaram.

As defesas do delegado Alberto Roque Peres e do policial investigado na Operação Turquia optaram por não se manifestar sobre o teor da notícia-crime e os desdobramentos da investigação interna.

Na quinta-feira (2), o delegado Romualdo Gianordoli Neto, um dos nomes à frente da Operação Baest, teve seu pedido de escolta armada negado pela Secretaria de Segurança Pública (Sesp). O requerimento, feito em fevereiro de 2026, surgiu após o delegado prestar depoimento na Corregedoria da Polícia Civil, onde detalhou nomes e circunstâncias de supostas irregularidades e “corrosão” na estrutura da instituição. Para a Sesp, no entanto, não ficou comprovada uma “ameaça concreta” que justificasse a proteção por agentes do Estado.

A negativa da secretaria baseia-se na tese de que o temor manifestado pelo delegado é “presumido e imaginado”. Em nota, a pasta argumentou que o risco alegado não deriva do exercício direto da função pública, mas sim das denúncias feitas por Gianordoli em redes sociais e confirmadas em depoimento. Como alternativa, o governo ofereceu a inclusão do delegado no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita), gerido pela Secretaria de Direitos Humanos. A proposta foi recusada por Gianordoli, que classificou a medida como “inviável” por exigir que ele abandonasse a carreira, mudasse de identidade e se afastasse da família.

O conflito escancara uma crise de confiança que se arrasta desde o final de 2025. Gianordoli, que chegou a ocupar o cargo de subsecretário de Inteligência da Sesp, foi exonerado após a conclusão do relatório da Operação Baest — ação que mirou o braço financeiro do Primeiro Comando de Vitória (PCV) e apreendeu R$ 100 milhões em bens. Na época, a cúpula da segurança, sob o comando de José Darcy Arruda, alegou quebra de hierarquia e de confiança. Por outro lado, o delegado associou sua saída ao fato de as investigações terem alcançado pessoas influentes e ligadas ao alto escalão da sociedade e do governo.

O cenário de insegurança mencionado pelo delegado ganhou contornos reais em março, quando um empresário da Serra, investigado na própria Operação Baest, sofreu um atentado a tiros em Jacaraípe. Enquanto o Ministério Público analisa as provas colhidas no inquérito da operação, a Polícia Civil mantém aberta uma investigação interna para apurar as acusações de “corrosão” feitas por Gianordoli.

Leia, na íntegra, a nota em que o governador anuncia a demissão de Arruda:

Recebi há pouco o pedido de exoneração do Delegado José Darcy Arruda, que esteve à frente da Chefia da Polícia Civil por mais de sete anos. Ele está se afastando por razões de saúde e pela iminente publicação de sua aposentadoria.

Registro meu reconhecimento e agradecimento pelo trabalho realizado ao longo desse período, marcado pelo compromisso com a segurança pública e por importantes avanços institucionais. Sua atuação contribuiu para fortalecer a Polícia Civil e para os resultados que o Espírito Santo vem alcançando na redução da criminalidade.

Desejo plena recuperação neste momento.

A partir de agora, iniciaremos a avaliação de nomes e perfis para a condução da instituição, com responsabilidade e foco na continuidade do trabalho que vem sendo desenvolvido. Seguiremos firmes, com planejamento, integração e compromisso com a proteção da população capixaba.

Leia o pedido de demissão de Arruda , na íntegra:

Excelentíssimo Senhor Governador do Estado,

Dirijo-me a Vossa Excelência para, com respeito e senso de responsabilidade, formalizar meu pedido de exoneração do cargo de Chefe da Polícia Civil do Estado do Espírito Santo.

Após mais de sete anos à frente da instituição, período marcado por intensos desafios e importantes conquistas, entendo que se encerra um ciclo de minha vida pública. Ao longo dessa trajetória, tive a honra de liderar uma Polícia Civil comprometida com a legalidade, a modernização e a entrega de resultados concretos à sociedade capixaba.

Os avanços alcançados na segurança pública do Estado são fruto de um trabalho coletivo, integrado e firme. Hoje, o Espírito Santo registra a menor taxa de homicídios dos últimos 30 anos, resultado de planejamento, investimento, inteligência e, sobretudo, do empenho incansável dos homens e mulheres que compõem nossas forças de segurança.

Deixo a instituição estruturada, fortalecida e equipada, com importantes investimentos realizados em tecnologia, inteligência investigativa e valorização profissional, o que permitirá a continuidade e o aprimoramento das políticas públicas na área.

A presente decisão também se impõe por razões de saúde. Após já ter enfrentado, ao longo da vida, cinco diagnósticos de câncer, fui novamente acometido pela doença e serei submetido a procedimento cirúrgico no próximo dia 10. Neste momento, é necessário priorizar o tratamento e a recuperação, com a serenidade e a dedicação que o quadro exige.

Ressalto que esta decisão também dialoga com um planejamento pessoal já anteriormente manifestado, em razão da iminente publicação de minha aposentadoria, o que reforça o entendimento de que este é o momento adequado para a transição.

Levo comigo a honra de ter servido ao povo capixaba e de ter contribuído, junto a tantos profissionais valorosos, para o fortalecimento da segurança pública em nosso Estado.

Agradeço a confiança de Vossa Excelência ao longo de toda essa jornada e reitero meu respeito institucional, desejando pleno êxito à continuidade dos trabalhos.

Respeitosamente,
José Darcy Arruda
Delegado de Polícia

 

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