Ela teve 32 filhos

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Eneide Rosa de Jesus, 67 anos, aposentada, natural de Nanuque (MG), e moradora do Assentamento Córrego da Augusta, no interior de Nova Venécia. Esse é o retrato de uma mulher que trabalhou na roça durante boa parte da vida e ainda teve a disponibilidade para gerar 32 filhos, cuidar de 13 e adotar mais uma. Tudo isso, somente com um homem: Valdivio José Dias, que faleceu em 19 de setembro de 2016, aos 81 anos.

Entre todas as gestações de Dona Tezinha, vale destacar que seis foram de gêmeos. Mas somente em duas oportunidades, os dois sobreviveram.

Mesmo gerando 32 filhos durante a vida, com o primeiro deles aos 15 anos e o último, aos 42, Dona Tezinha, como é conhecida na localidade, só pode criar 13, já que a maioria das crianças faleceram ainda em seu ventre ou poucos dias após o nascimento. Destes 13, um deles faleceu em setembro de 2012, vítima de homicídio, em Pinheiros. “Ele morava e trabalhava aqui comigo e na semana em que ele foi para Pinheiros, o mataram”, disse.

Além da morte do filho Geovane, a família de Dona Tezinha teve outra baixa por homicídio, também em Pinheiros. Uma de suas netas foi assassinada e somente a sua ossada foi encontrada alguns dias depois. “Ela despareceu e quando encontraram, só acharam a ossada. Eu também criei ela, mas depois que ficou maior de idade, quis ir para o mundo viver a vida e aconteceu isso. Eu sinto muita tristeza por conta disso. Era uma menina muito boa, trabalhadora e que ajudava todo mundo”.

Se você acha que o primeiro filho de Dona Tezinha foi muito cedo, imagina então quando souber que ela se casou com Seu Valdivio aos 12 anos de idade. Assim como nos dias atuais, casar-se com menos de 18 anos na época era difícil, então, para isso, os pais de Tezinha avançaram sua idade nos documentos em 10 anos, para que o matrimônio com Valdivio fosse realizado dentro da legalidade.

Com a família grande, Dona Tezinha diz que é difícil reunir todos. “No Dia das Mães e no Natal, sempre vem três, quatro, mas nunca reunimos todos. Teve um Natal em que eu estava preparando isso. Seria um dia muito feliz, mas minha mãe faleceu no período e não conseguimos registrar o momento. Mas mesmo assim, na época as crianças eram todas pequenas e não nos separamos. Ficamos todos juntos”, disse.

Mesmo sabendo que havia meios para evitar a gravidez, a aposentada preferiu dar continuidade e gerar os 32 filhos, se inspirando na avó, que teve 26. Já sua mãe, perto delas, foi coadjuvante, criando “somente” seis. “A minha tia gerou gêmeos em oito oportunidades. Destes, somente um casal sobreviveu. Então eu disse para minha vó: eu vou acompanhar vocês. Se a senhora ganhou 26, eu vou ganhar 20. Ela perguntou se eu não estava brincando e eu disse que não. E aconteceu que eu ganhei mais”.

Entre os filhos de Dona Tezinha, as duas mais velhas são as gêmeas Aparecida e Maria Aparecida, com 42 anos, cada. O mais novo é o Victor, com 25 anos. Curiosamente, ele foi um dos três que nasceram em hospital. As outras duas foram a Márcia e outra menina que faleceu com 19 dias. Já o restante, foram todos com parteiras. “Nunca tive complicação nenhuma”, frisou.

Por morar no interior, Dona Tezinha acredita que esse tenha sido o principal fator para a não sobrevivência de mais filhos que poderiam ter recebido algum tratamento durante uma eventual doença. “Eu morava na roça. Para poder ir na cidade era um sacrifício danado. Não tínhamos carro e nem ninguém para levar”.

Natural de Nanuque, em Minas Gerais, Dona Tezinha morou a maior parte da vida na zona rural. Somente muito tempo depois que ela foi morar na cidade. Em seguida, ela se mudou para Pinheiros e, após seu marido ganhar as terras em que vivem hoje, que ela veio morar no Assentamento Córrego da Augusta, no interior de Nova Venécia. Isso, já há 15 anos. “Meu esposo veio para cá e ficou muito tempo debaixo de lona até ganhar essa terra. Quando ele ganhou, eu ainda morava em Pinheiros. Quando deu tudo certo, decidi vir morar na roça com ele. Achei aqui tão bom e sossegado. Sou muito feliz aqui. Não gosto de ir à rua. Só vou quando é para ir ao médico”, disse.

Atualmente, para passar o dia em casa com alguma atividade, Dona Tezinha fabrica tapetes utilizando uma máquina de costura. “É o meu passatempo”, diz.

Para finalizar, Dona Tezinha disse o que falaria para seus filhos se todos estivessem vivos e reunidos no mesmo local. “Eu falaria para eles seguirem meu caminho. Trabalharem muito e ser honesto com o que temos. Temos que ser felizes com o que a gente tem. Seguir o caminho do pai deles, também. Ele foi um homem muito honesto e trabalhador. E serem felizes com a vida e a família deles. Isso é muito bom. Era isso que eu diria para eles”, finalizou.

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