sábado, julho 11, 2026
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Dona da sabedoria de partejar

Falecida há 18 anos, dona Nenzinha deixou na história-cultural de Nova Venécia, a experiência de uma mulher que ajudou a “colocar” a maioria da população veneciana ao mundo. Hoje, A Notícia faz uma homenagem àquela que agia como obstetra, na época em que a medicina tradicional, pouco fazia parte da vida de quem aqui morava

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Um trabalho esquecido em meio a enxurrada de informações e avanços da medicina, o ofício de partejar, serviu para tornar conhecidas, ilustres moradoras de Nova Venécia. Entre elas, uma das mais famosas parteiras de todos os tempos, a cearense, Maria Rufina da Silva Mota, uma mulher de estatura pequena, que muito contribuiu para o município.

Dona Nenzinha, como era conhecida, foi a responsável por “colocar” muita gente no mundo. Chegou a Nova Venécia ainda criança e como iniciou a função de partejar, a neta, Isabel Mota, disse não ter conhecimento do fato. Como casou-se em 1917, familiares acreditam que tudo começou na década de 1920.

O que Isabel lembra, é da sabedoria daquela senhora, que mesmo só tendo estudado o suficiente apenas aprender a ler, tinha muito conhecimento. A cavalo, dona Rufina seguia seu rumo para o interior, quando era chamada para fazer partos. Dentro da cidade, a parteira fazia muitas vezes, três deles por dia. Muitos destes nascimentos, a mulher que agia no lugar dos que hoje são os obstetras, chegava a ficar até sete dias na casa da parturiente. “Às vezes complicava e naquela época, a mulher não saia do quarto, até que o umbigo da criança caísse. Minha avó acompanhava tudo isso, quando necessário”, diz Isabel.

Com uma caixinha na mão, dona Rufina levava nela seus materiais que lhe serviam para a hora do ofício: tesoura, algodão, gaze e luvas eram os principais. No momento de ajudar a mulher dar a luz, os panos limpos emergidos em água morna, auxiliava a doutora em sabedorias populares. “O Dr. Renato Araújo Maia também a chamava para ajudá-lo, quando a demanda era grande no hospital dele, ela era muito conhecida e excelente profissional no que sempre trabalhou a vida toda”, conta a neta.

» Dona Nenzinha foi uma das parteiras mais conhecidas e solicitadas de Nova Venécia

Segredos do ofício

Para atuar na área, dona Nenzinha carregava extrema sensibilidade e muita calma. Católica e temente a Deus e Nossa Senhora, as orações também nunca deixavam de existir nesses momentos que misturavam dor, medo e muita felicidade. Com a prática popular, foi das mãos dela, que nasceram a maioria de seus netos. “O último parto que vovó fez foi de gêmeos. Já tentei achá-los, não consegui. Sei que o nome de um deles é Edson. É alguém que trabalhava em uma eletrônica”, explica Isabel.

Dona Nenzinha faleceu aos 99 anos, de morte natural e fez parto até por volta dos 70 anos, quando um dos filhos pediu para que se aposentasse. Como forma de pagamento, poucas vezes recebeu dinheiro, a neta conta, que a pequena cearense dizia que o ofício era uma missão em sua vida.

De ensinamentos, Rufina deixou muitos, inclusive a fé. Uma cozinheira exemplar, deixou a moqueca como um prato simbólico da família. Os chás? A neta conta que em casa, todos herdaram a cultura alternativa da avó.

A calma era uma das suas grandes características e talvez, um de seus segredos para ser tão requisitada na hora do nascimento dos bebês venecianos. Nas mãos da herdeira de um saber histórico-cultural evoluído, nunca teve uma vida perdida durante os partos.

» Ao lado das filhas Ormy e Naumir, dona Nenzinha (meio) recebeu o título de cidadã veneciana em 1985

Casamento, filhos, netos e bisnetos

Dona Nenzinha casou aos 17 anos com o lavrador Argemiro Mota. O matrimônio não aconteceu de forma fácil. O pai da noiva não aceitou o relacionamento e o casal resolveu fugir para casa-se. Tiveram três filhas: Ormy, Naumir e Maria José. Os netos somam-se 17: Marcos Renan, Irineu, Magno, Paulo, Isabel, Maria da Penha, Tânia, Antônio, Iracema, Maria Augusta, Israel, Yândra, Joãozinho, Valmir, Fátima, Brasilina e João (Buiú). Ainda, 40 bisnetos e 20 tataranetos.

A mulher que ficou conhecida na comunidade veneciana por ter ajudado a trazer tantos moradores ao mundo, nasceu no dia 24 de novembro de 1901 e deixou muitos ensinamentos.

» A professora Isabel Mota ainda guarda a lei que concedeu o títutlo à avó
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