Convivendo com o HIV

» Sebastião quer ser um ativista na área, com o intuito de conscientizar as pessoas sobre o risco de contaminação do HIV
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O teste rápido através da saliva apontou positivo. No mesmo instante, o exame de sangue trouxe diagnóstico igual. Desde que descobriu ser soropositivo, Sebastião viveu várias fases. Mas, uma força maior alimentada pela empresa onde trabalha e principalmente pela determinação que passou a ter, mudou o rumo de uma história que parecia não ter final feliz

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Há dois anos e nove meses, o operador de caixa Sebastião Júnior Lavanhole Pimenta, 22 anos, recebeu uma notícia que parecia ter aberto um buraco embaixo dos seus pés. O diagnóstico de ser portador do vírus HIV, fez com que sua vida virasse de cabeça para baixo, em fração de segundos.
Após um teste rápido em uma unidade de saúde, Sebastião não se conteve e o choro por algumas horas foi inevitável. Ali, recebeu o apoio dos profissionais de saúde, e sem hesitar, retornou ao trabalho. Durante o expediente, os pensamentos não deixavam de o atormentar e o veneciano resolveu contar o que acabara de descobrir, para o departamento de recursos humanos do estabelecimento. A primeira impressão, é que seria demitido. Engano, foi o local que o ofereceu mais apoio, desde a descoberta.
Além do exame feito no Sistema Único de Saúde (SUS), Sebastião repetiu o teste na rede particular, sabendo que daria o mesmo resultado. Um único momento que aconteceu há dois meses antes da descoberta do “positivo”, deixou marcas eternas em Sebastião. Aos 19 anos, o operador de caixa foi contaminado através de uma relação sexual sem preservativo. O rapaz alto, saudável, branco e de muitos amigos, teve que saber lidar com uma das formas mais cruéis dos sentimentos, o preconceito.
Mesmo morando com os pais, foi uma tia, a confidente na família. Foi ela quem transmitiu a notícia aos pais de Sebastião. O pai nunca tocou no assunto com ele, que hoje cursa o 5° período de geografia, no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).
Para o tratamento, o estudante tem consultas agendadas a cada seis meses em Vitória. Uma vez por dia, faz o uso de apenas um comprimido (três em um). Mesmo levando uma vida normal, Sebastião precisa ter cuidados com a alimentação.
Uma atitude que Sebastião sempre tomou desde que ficou sabendo que foi infectado, é não omitir ser “positivo”. Um dos motivos é alertar a todos sobre os riscos do sexo sem segurança.

Campanha da Rede Notícia

A Rede Notícia em parceria com a Secretaria de Saúde de Nova Venécia e Hospital São Marcos vão realizar na próxima sexta-feira, 09, a campanha, “A Vida é Melhor sem Aids”. A ação conta com distribuição de panfletos informativos e preservativos. O evento acontece na saída de Nova Venécia, sentido São Mateus, nas imediações do Ifes. De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente calcula-se que cerca de 830 mil pessoas vivam com HIV/aids no Brasil.

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Contaminado por um descuido

» Contaminado aos 19 anos com vírus do HIV, Sebastião Júnior Lavanhole Pimenta não recebeu a notícia como sentença de morte, optando por ser feliz e seguir em tratamento

“Eu tive relação sexual apenas um vez sem camisinha. “Eu tive relação sexual apenas um vez sem camisinha.  Antes, sempre me preveni. Foi apenas uma transa, não  era relacionamento. Deixei a emoção falar mais forte. Algumas semanas depois fiquei internado por uns  cinco dias, com diagnóstico de dengue. Mas já era o HIV se manifestando e eu não sabia. Na mesma época, a pessoa com quem transei, comentou comigo que, em um relacionamento dele anterior, a pessoa tinha sido infectada pelo vírus. Fiquei preocupado e foi isso que fez com que, eu realizasse o exame. Depois que fiquei sabendo, o procurei e avisei que eu tinha sido diagnosticado com HIV e que com certeza, ele também era portador do vírus. Foi a única pessoa que me relacionei sem o preservativo. Ele ficou espantado e minha preocupação, foi pedir a ele, que não transmitisse isso a mais ninguém. A dor é imensa. Fiquei três meses recluso em mim. Mas resolvi que queria viver, e mesmo com o diagnóstico, nunca pensei em morte. Vi que tenho direito de ser feliz, como qualquer pessoa.  Quando contei na empresa em que trabalho, não tive coragem de falar, precisei escrever em um papel, e assim foi por algum tempo, eu não conseguia pronunciar a palavra HIV. Em casa eu nunca tive apoio, talvez tratam dessa forma, para minimizar o sofrimento. Sempre que falo sobre o assunto, ignoram, mas também não me tratam mal, apenas fingem que não existe o HIV em mim. Muitos amigos e familiares se afastaram no início, isso nunca me abalou. Vejo que depois que tiveram mais informação, mudaram de ideia.  Nunca mais consegui me relacionar com ninguém, tenho medo, mesmo sabendo que sou indetectável (pessoas que tomam o antirretroviral diariamente e mantêm uma carga viral indetectável, não têm efetivamente risco de transmissão sexual do vírus para um parceiro HIV negativo). A rejeição vem de mim, ainda não me sinto seguro. Muita gente pode achar uma loucura essa divulgação que estou fazendo, mas não quero me esconder. Eu quero ser um ativista da causa, desejo que não façam, o que fiz comigo.  Sempre fui informado e mesmo assim, deixei acontecer comigo. São alguns instantes que te fazem refém de um vírus. Saio e me divirto como todos os jovens da minha idade, mas preciso tomar alguns cuidados. Bebida alcóolica eu faço pouco consumo, por exemplo. O HIV anda muito perto e muito longe das pessoas. Perto porque a qualquer descuido, qualquer um pode contrair. Longe porque o assunto é um tabu. Falam sobre diabetes, câncer, tuberculose, mas sobre a Aids, tudo fica limitado. É falta de responsabilidade ter relação sexual  sem prevenção. A próxima vítima pode ser qualquer um que esteja lendo esta matéria.  Não achem que todo soro positivo é pálido e com aparência doente, isso é mito. Tenho ainda a esperança de que a medicina descubra a cura para a Aids. Mas acima de tudo, o mais importante é a prevenção”.

 

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