Uma carta assinada neste domingo (28) por três padres da congregação dos Missionários do Sagrado Coração (MSC) expôs detalhes de uma crise envolvendo a saída deles da Paróquia São João Evangelista, em Pinheiros, no Norte do Espírito Santo. No documento, obtido pela Rede Notícia [leia mais abaixo], os padres Francisco de Assis, José Adriano e Ailton Izaias criticam a conduta do bispo da diocese de São Mateus, dom Paulo, na condução de uma crise criada desde o início da pastoral deles na paróquia, em janeiro, e mencionam o que chamaram de “resistência, desconfiança e oposição velada”.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
Em novembro de 2024, a diocese de São Mateus publicou o que chamou de “nota de esclarecimento”, assinada pelo bispo, na qual anunciou que, em janeiro de 2025, receberia a congregação MSC, que assumiria a paróquia de Pinheiros, até então conduzida pelo padre Valdinei Soares. No texto, a diocese argumentou que “nos últimos anos, sentimos a necessidade de convidar outras congregações para continuar este bonito caminho sinodal de comunhão, participação e missão junto aos religiosos”. O comunicado informou ainda que apenas a congregação MSC aceitou o convite para atuar na diocese do Norte do Espírito Santo. “Algumas congregações foram convidadas e, após escuta e reflexão no Colégio de Consultores e no Conselho Presbiteral, a Congregação que aceitou o convite até o presente momento foi a Congregação dos Missionários do Sagrado Coração (MSC)”.

No dia 19 de janeiro, os padres Francisco, Ailton e José Adriano tomaram posse em uma missa presidida por dom Paulo, com a igreja matriz de Pinheiros lotada, conforme imagens publicadas pela própria diocese.

Já no dia 30 de novembro deste ano, dom Paulo divulgou um documento assinado por ele no qual nomeou o padre Elder Malovini Miossi como pároco de Pinheiros e, como vigário das paróquias de Pinheiros e Montanha, o padre Fabrício Soares Pardim. Elder tem família na região de Montanha, e Fabrício é natural de Pinheiros.

Na carta assinada no domingo (28), direcionada aos padres da diocese e às comunidades da paróquia de Pinheiros, os três religiosos afirmam que a saída decorreu de “circunstâncias criadas, alimentadas e mantidas ao longo deste ano”, que, segundo eles, “tornaram inviável a continuidade de nossa presença”.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
“Chegamos em janeiro a esta paróquia, oferecida pelo Bispo diocesano, Dom Paulo, com o desejo de servir, de somar forças, de caminhar juntos na missão confiada pelo Senhor Jesus Cristo. Trazíamos um coração aberto, preparado para amar e ser ponte de comunhão. No entanto, desde o início encontramos resistência, desconfiança e oposição velada. O descontentamento de algumas pessoas de pastorais e comunidades pela saída de nosso antecessor transformou-se em murmuração, calúnia e divisão. Aquilo que deveria ser um processo natural de transição tornou-se um campo de feridas espirituais”, diz a carta.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
Os padres afirmam ainda que “lamentavelmente, não apenas membros de pastorais e lideranças foram envolvidos nesse movimento, mas também o sacerdote que nos antecedeu”. Segundo o documento, por meio de comentários, conversas paralelas e cartas enviadas ao bispo, formou-se um ambiente que teria minado a credibilidade deles e afetado a unidade paroquial.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
“Essas cartas e mensagens, enviadas sem diálogo, sem transparência e sem caridade, foram acolhidas sem que a nós fosse dada a oportunidade de sermos ouvidos. O Bispo, no mês de junho, convocou uma reunião com todos os coordenadores e tesoureiros das 40 comunidades, além das pastorais, movimentos, secretárias e funcionários, para ouvir reclamações. Obedecendo à sua palavra, nós, padres, não participamos, pois nos foi dito por mensagem do Bispo que posteriormente ele nos chamaria pessoalmente para uma conversa. Passaram-se seis meses e essa conversa jamais aconteceu”, relata o texto.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
A carta afirma ainda que nem mesmo o superior da congregação conseguiu dialogar com o bispo. “Nosso Provincial, Pe. Ronnie, MSC, com insistência fraterna, buscou diversas vezes o diálogo com o Bispo. Em todas elas, recebeu promessas de uma conversa que nunca se concretizou. Com o passar do tempo, tornou-se evidente que nossa presença na paróquia e na Diocese passou a ser tratada com indiferença. O ar de comunhão, essencial na vida eclesial, dissipou-se diante de um silêncio que feria mais do que as próprias acusações”, diz o documento.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
Os padres afirmam que não se sentiram acolhidos pela diocese e que não tiveram apoio para reconstruir o que chamaram de unidade ferida. “Sem espaço para o diálogo, sem acolhida institucional, sem apoio para reconstruir a unidade ferida, tornou-se inevitável o discernimento de nossa Congregação: permanecer aqui já não edificava a fé, nem fortalecia a comunhão. Pelo contrário, tornara-se um peso que gerava sofrimento ao povo e a nós mesmos. Assim, a Congregação, entristecida, mas consciente de sua responsabilidade pastoral, decidiu encerrar nossa missão junto à Diocese e a esta Paróquia.”
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
No texto, os padres citam que uma minoria teria semeado divisão na paróquia. “Despedimo-nos com tristeza: não pelo trabalho realizado, mas pela ausência de caridade que presenciamos; não pela missão, mas pela falta de verdade e de diálogo; não pelo povo fiel, mas pela ação de poucos que, por influência e insatisfação, semearam divisão e dor.”
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
“Estamos saindo com a consciência tranquila diante de Deus, levando conosco o testemunho de quem buscou servir e não ser servido. Levamos também o carinho sincero daqueles que nos acolheram, que conosco caminharam e que sofreram ao perceber o que estava acontecendo”, acrescentam.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
Os padres agradecem aos colegas da diocese e deixam um apelo. “Aos irmãos padres desta Diocese, deixamos nossa palavra de comunhão e respeito. Não carregamos ressentimento, mas um pedido: que nunca falte entre nós a coragem de dialogar, de esclarecer e de curar feridas antes que elas se tornem abismos.”
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
“Às comunidades desta Paróquia, deixamos nossa bênção e nosso amor. Continuem firmes na fé, sem permitir que divisões apaguem a luz do Evangelho. Rezem pelos que se afastaram e pelos que contribuíram para este cenário doloroso. Todos são filhos de Deus e todos precisam de cura”, diz a carta.
- Clique aqui e entre em nosso grupo no WhastApp e receba as principais notícias do ES em primeira mão
Por fim, os padres afirmam que deixam a paróquia com tristeza, mas com a consciência tranquila. “Estamos saindo com tristeza profunda, mas com a paz de quem sabe que Deus continua conduzindo nossa história. E partimos com a certeza de que outras Dioceses e comunidades necessitam e desejam a nossa presença, o nosso trabalho e o nosso coração missionário.”


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que não vai se manifestar sobre o assunto. A reportagem demandou posicionamento da diocese de São Mateus e da Nunciatura Apostólica, que é “embaixada” do Vaticano no Brasil, mas, até a publicação do texto, não houve retorno.
Leia, na íntegra, a carta assinada pelos padres da congregação Missionários do Sagrado Coração (MSC):
CARTA DE AGRADECIMENTO E DESPEDIDA
Aos irmãos padres desta Diocese de São Mateus, às Religiosas e às Comunidades que compõem esta Paróquia de São João Evangelista.
Queridos irmãos e irmãs em Cristo! Com o coração entristecido, mas iluminado pela verdade que liberta, nós, padres Missionários do Sagrado Coração, presentes nesta Paróquia de São João Evangelista da cidade de Pinheiros – ES, dirigimo-nos a todos para esclarecer os acontecimentos que nos conduziram à decisão de deixar esta paróquia e encerrar nossa missão nesta Diocese de São Mateus. Não partimos porque desejamos; partimos porque as circunstâncias criadas, alimentadas e mantidas ao longo deste ano tornaram inviável a continuidade de nossa presença.
Chegamos em janeiro a esta paróquia, oferecida pelo Bispo diocesano, Dom Paulo, com o desejo de servir, de somar forças, de caminhar juntos na missão confiada pelo Senhor Jesus Cristo. Trazíamos um coração aberto, preparado para amar e ser ponte de comunhão. No entanto, desde o início encontramos resistência, desconfiança e oposição velada. O descontentamento de algumas pessoas de pastorais e comunidades pela saída de nosso antecessor transformou-se em murmuração, calúnia e divisão. Aquilo que deveria ser um processo natural de transição tornou-se um campo de feridas espirituais.
Lamentavelmente, não apenas membros de pastorais e lideranças foram envolvidos nesse movimento, mas também o sacerdote que nos antecedeu. Através de comentários, conversas paralelas e até cartas enviadas ao Bispo Diocesano, formou-se um ambiente que minou nossa credibilidade e afetou gravemente a unidade paroquial.
Essas cartas e mensagens, enviadas sem diálogo, sem transparência e sem caridade, foram acolhidas sem que a nós fosse dada a oportunidade de sermos ouvidos. O Bispo, no mês de junho, convocou uma reunião com todos os coordenadores e tesoureiros das 40 comunidades, mais as pastorais, movimentos, as secretárias e funcionários para ouvir reclamações. Obedecendo à sua palavra, nós, padres, não participamos, pois nos foi dito por mensagem do Bispo que posteriormente ele nos chamaria pessoalmente para uma conversa. Passaram-se seis meses e essa conversa jamais aconteceu.
Nosso Provincial, Pe. Ronnie, MSC, com insistência fraterna, buscou diversas vezes o diálogo com o Bispo. Em todas elas, recebeu promessas de uma conversa que nunca se concretizou. Com o passar do tempo, tornou-se evidente que nossa presença na paróquia e na Diocese passou a ser tratada com indiferença. O ar de comunhão, essencial na vida eclesial, dissipou-se diante de um silêncio que feria mais do que as próprias acusações.
Sem espaço para o diálogo, sem acolhida institucional, sem apoio para reconstruir a unidade ferida, tornou-se inevitável o discernimento de nossa Congregação: permanecer aqui já não edificava a fé, nem fortalecia a comunhão. Pelo contrário, tornara-se um peso que gerava sofrimento ao povo e a nós mesmos. Assim, a Congregação, entristecida, mas consciente de sua responsabilidade pastoral, decidiu encerrar nossa missão junto à Diocese e a esta Paróquia.
Despedimo-nos com tristeza:
-
não pelo trabalho realizado, mas pela ausência de caridade que presenciamos;
-
não pela missão, mas pela falta de verdade e de diálogo;
-
não pelo povo fiel, mas pela ação de poucos que, por influência e insatisfação, semearam divisão e dor.
Estamos saindo com a consciência tranquila diante de Deus, levando conosco o testemunho de quem buscou servir e não ser servido. Levamos também o carinho sincero daqueles que nos acolheram, que conosco caminharam e que sofreram ao perceber o que estava acontecendo.
Aos irmãos padres desta Diocese, deixamos nossa palavra de comunhão e respeito. Não carregamos RESSENTIMENTO, mas um pedido: que nunca falte entre nós a coragem de dialogar, de esclarecer e de curar feridas antes que elas se tornem abismos.
Às comunidades desta Paróquia, deixamos nossa bênção e nosso amor. Continuem firmes na fé, sem permitir que divisões apaguem a luz do Evangelho. Rezem pelos que se afastaram e pelos que contribuíram para este cenário doloroso. Todos são filhos de Deus e todos precisam de cura.
Estamos saindo com tristeza profunda, mas com a paz de quem sabe que Deus continua conduzindo nossa história. E partimos com a certeza de que outras Dioceses e comunidades necessitam e desejam a nossa presença, o nosso trabalho e o nosso coração missionário.
Que o Senhor restitua a unidade, cure as feridas e devolva a esta comunidade paroquial a serenidade que nasce do coração de Cristo.
Em Cristo, que tudo vê e tudo reconcilia,
Padre Francisco de Assis, MSC
Padre José Adriano, MSC
Padre Ailton Izaias, MSC
Pinheiros – ES, 28 de dezembro de 2025
Solenidade da Sagrada Família de Nazaré.






