Após viuvez, mulheres seguem fazendo a diferença na liderança de suas empresas

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Mesmo em processo de luto, elas precisaram seguir adiante. Aqui, três moradoras e empresárias de Nova Venécia contam como é ter que lidar com a ausência de seus maridos e gerir seus próprios negócios, mesmo ainda enlutadas


Funciona mais ou menos assim: um capítulo sem final, uma página arrancada à força. Quem perdeu um parceiro ou uma parceira, traz com o luto, uma série de sonhos interrompidos. Quem já passou por essa experiência, relata o quanto a dor afeta todas as áreas da vida, incluindo o profissional, mas, os fatos indicam que é preciso continuar.

Nos relatos a seguir, a empresária Maria da Penha Meneguetti Coser, 57 anos, que perdeu o esposo, Joao Geraldo Coser, vítima de um infarto fulminante aos 59 nos. Juntos há 34 anos, Penha conta que precisou aprender a “andar sozinha”, em tudo na vida há cerca de três anos. Aproveitando o mês Setembro Amarelo, uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, a empresária aproveita para alertar e divulgar que, existe vida após o luto. “Mesmo com todo sofrimento, com a dor, é necessário ter fé, e debruçar essa fé em algo concreto, que pode ser o trabalho, o filho, os netos. Quero dizer que o diálogo sempre é bem-vindo, e quem estiver passando por essa situação, pode ficar à vontade para me procurar, podemos conversar. Falar ajuda e saber que tem mais gente na mesma situação que a sua, pode te trazer apoio”, fala Penha.

Na mesma situação da ausência para sempre do marido, a designer de unhas e empresária, Lia Mara Alvarenga dos Santos Oliveira, 38. Mais conhecido como Jefinho, o caminhoneiro Jefter de Oliveira, faleceu aos 41 anos, vítima de um acidente .

Proprietária de um salão, ela conta que perdeu todas as forças e vontade de viver com a partida do marido, que era muito presente em sua vida, na empresa, e no dia a dia dos filhos do casal.

A dentista e há 26 anos, produtora rural, Marta Soares de Souza Lima, 63 anos, precisou seguir na segunda profissão, quando o marido, o veterinário, Luiz Henrique Altoé, faleceu quando os dois tinham 37 anos e dois filhos, um de um ano e outro de três. O motivo da morte, até hoje é indefinido. De acordo com a Marta, entre os sintomas, o marido apresentava febre. Mesmo com recursos e exames sido enviados até para o exterior, o diagnostico ainda é oculto.

Nascida em Minas Gerias, na cidade de Caratinga, foi quando foi fazer especialização em Odontologia, no Rio de Janeiro, que os dois se conheceram, através da irmã dele, que era amiga da Marta.

De acordo com a dentista, sem entender nada na vida no campo, ela teve que aprender o novo ofício e rápido, tudo isso com a intenção de entregar aos filhos, aquilo que o esposo herdou, uma propriedade rural, na Pedra Grande, interior, há 12 quilômetros da cidade.

Para mostrar um pouco da realidade do que é conviver com o luto, aqui, as três mulheres contam como está sendo o processo de tentar seguir em frente, e mesmo diante do “terremoto”, continuar suas carreiras, profissões e ainda ser o alicerce de suas vidas e empresas.


A morte do marido sem tempo para o luto

“Meu marido morreu no dia que completamos 34 anos de casados. Pela manhã, ele prestou uma homenagem linda no Facebook, em comemoração a data, e às 18h30, o encontrei morto na cama. Um infarto o levou. Um buraco abriu-se. Aos 23 anos fui mãe, e agora, faltavam 18 dias para nosso primeiro neto nascer, ele estava radiante. Meu amigo, companheiro, esposo, confidente tinha partido aos 59 anos de idade, foi tudo muito novo e inacreditável para mim. Isso aconteceu em um sábado, e após o enterro, precisei já começar a tratar e pensar, como iria levar a empresa. O ramo de saúde não tem como parar, temos três laboratórios de análises clínicas em cidades diferentes. Não pude viver o luto na forma de ficar quieta em meu canto. Na segunda-feira estávamos com a empresa funcionando, temos contratos firmados e mesmo arruinada, precisei me reinventar, emprego 23 colaboradores, eles têm as suas famílias para sustentar. Com muito profissionalismo e honrando tudo que o Geda construiu e construímos juntos em 34 anos de empresa, segui. Tem quase três anos que ele morreu. Do meu jeito, colocando um toque feminino, venho conseguindo gerir o nosso laboratório. Recebi até homenagem do nosso escritório de contabilidade, pelo que venho desenvolvendo. A Covid-19 está ai, nenhum dos nossos colaboradores se contaminou, prezo por cada um deles, é minha forma de trabalhar e viver, proporcionando um jeito humanizado aos meus funcionários. Devido á pandemia, não pudemos fazer a festa de Natal no ano passado. Resolvi os homenagear contratando um trio elétrico, que com músicas, circulou declarando mensagens e mostrando como cada um deles é importante para nós. Nesse tempo que assumi o comando, a empresa evoluiu, usei a criatividade, profissionalismo e a sensibilidade da mulher. Não que eu esteja desmerecendo os homens, não é isso. Mas elevei números de colaboradores, o faturamento subiu, paguei tudo que estava pendente, sempre trazendo para meu trabalho, um jeito maternal e humano de administrar. Estou dando continuidade a nossa empresa e creio que, de onde ele estiver, está feliz ao nos ver tocando o que ele deixou. Minha neta está quase chegando, serei vovó novamente. O luto? Está entalado, ainda não vivi, vou vivendo do jeito que dá, não há receita e nem fórmula, cada pessoa leva do seu jeito, mas com um sentimento que acho que funciona igual para quem sofre uma perda: de muita dor na alma”
Maria da Penha Meneguetti Coser

» Na direção do laboratório Coser, Maria da Penha Meneguetti Coser recebeu certificados e homenagens através de sua administração

Medicações e a volta ao trabalho

“Fiquei viúva aos 38 anos e com dois filhos, o Samuel, de 13 anos, e o Rafael, de três. Nos conhecemos quando eu tinha 21 anos e o Jefinho, 24, são 18 anos juntos, 15 anos de casados. Um acidente tirou a vida do meu marido. Ele era motorista e transportava combustível, o caminhão pegou fogo quando ele estava na estrada, voltando para casa. Recebi uma mensagem de uma amiga, perguntando o que estava acontecendo, eu não sabia de nada. Fui até a empresa onde ele trabalhava e eles começaram a ligar para os motoristas, todos atenderam o celular, menos ele. Foi um desespero. A minha esperança era que o Jefinho tivesse conseguido pular do carro, comecei a ligar para todos os hospitais e nada de notícia dele. Infelizmente ele não sobreviveu. Para fazermos o velório e enterro dele, somente quase dois meses depois, foi preciso fazer o teste de DNA. O Jefinho era meu marido, amigo, companheiro, um excelente pai, um homem responsável, era meu porto seguro. Meu lar está incompleto, perdeu a graça, ficamos meus filhos e eu. A dor está sendo incalculável, estou fazendo tratamento, tomando medicações, e diante disso tudo, precisei continuar, afinal, tenho que criar nossos filhos. De início fiquei dois meses afastada do trabalho, depois fui voltando aos poucos. Ele me ajudava no que eu precisava no salão, consertava uma coisa, fazia outra, eu tinha a presença do meu marido diariamente ali, juntos. Hoje isso acabou, ele viajou a trabalho e nunca mais voltou. As minhas clientes e as meninas no salão me entretêm durante o dia, é uma válvula de escape, mas quando volto para casa à noite, é difícil, é a hora da dor maior. Perder meu marido é como se tivessem arrancado meu braço, fiquei aleijada, mas continuo em minha profissão, cuidando dos meus filhos, vou seguindo, não sei como, mas vou indo”
Lia Mara Alvarenga dos Santos Oliveira

» Lia Mara Alvarenga dos Santos Oliveira passou dois meses sem voltar ao trabalho, após a morte do marido

Uma dentista e produtora rural ao mesmo tempo

“Meu marido faleceu quando tínhamos 37 anos e dois filhos, pequenos, o Marcelo e o Felipe. Sou dentista e sempre me dediquei à Odontologia. Nunca havia me interessado e nem gostava da área rural. Foi tudo muito rápido, e com a morte dele repentina, ficou uma propriedade rural, que havia sido herdada da família dele. Tive que aprender tudo, nem chegar à fazenda eu sabia, meu sogro me ensinou o caminho, pois essa terra tinha sido destinada a ele há pouco tempo, eu não conhecia ainda. Não entendia nada do campo, não sabia nem o que era carrapato. Precisei me reinventar, pois eu queria entregar a fazenda aos meus filhos quando crescessem. Aprendi muito com meus pacientes, eles me ensinavam o tempo inteiro, comecei a conversar com veterinários, adquiri livros, assistia programas na televisão específico da área e enviava cartas com perguntas para eles, não existia internet. Assim fui aprendendo. Peguei a terra do meu marido sem estrutura, tripliquei o seringal, além do gado de leite que aumentei e com ordenha mecânica, temos o gado de corte, nelore. Refiz a lavoura de café, hoje temos plantação de pimenta. Fiz isso tudo e ao mesmo tempo, sempre tive meu consultório. Mudei a minha rotina para me adequar ao novo. Passei a acordar às 4 horas da manhã, com destino à fazenda, e voltava antes das 7h, para levar meus filhos à escola. Hoje eles cresceram, um é dentista e o outro agrônomo, que é quem também cuida da nossa propriedade, junto comigo. Continuo administrando a fazenda, acordo ainda no mesmo horário e às 9 horas, estou de volta para atender meus pacientes no consultório, que de um, se expandiu para três, com seis dentistas atendendo. Crio animais que meu marido gostava na fazenda, ele amava cavalos, fui preservando o que ele amava também. Consegui levar a propriedade esses anos todos, formar meus filhos, tudo sozinha. Não sei como, mas consegui. Acho que as coisas acontecem e vão fluindo em minha vida, e vejo que a minha maior preocupação, agora deu lugar ao que foi almejado, que era além de criar meus filhos, ter a fazenda até hoje, a mesma que foi herdada do pai dele”
Marta Soares de Souza Lima

» Marta Soares de Souza Lima acorda às 4 horas da manhã para dar conta do consultório e da fazenda
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