A LEGENDÁRIA “SERRA DAS ESMERALDAS” E A EXPLORAÇÃO DOS SERTÕES DO RIO CRICARÉ NO SÉCULO XVI

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» Detalhe de mapa datado de 1612 mostrando o “Rio de Cricaré”, no norte da Capitania do Espírito Santo, desenhado pelo “Cosmógrafo de Sua Magestade” João Teixeira de Albernaz I. Publicado no Atlas “Livro que dá Razão do Estado do Brasil”, considerado por Levy Rocha o mais antigo atlas especial de um território americano.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Desde o início da conquista das Américas constituiu-se um imaginário de cidades inteiras de ouro ou até montanhas em que se extrairiam imensa quantidade de metais ou pedras preciosos. A América Espanhola foi contemplada com as minas de Potosí (atual Bolívia), para desespero das populações originárias que ali viviam e foram escravizadas e massacradas. Mas a América Portuguesa não tivera a mesma “sorte” e, apesar de desde o início da colonização se buscar o “el dorado”, só se obteve êxito no século XVIII, no interior da Capitania do Espírito Santo, no território do atual estado de Minas Gerais.

Também a região do vale do rio São Mateus foi palco de eventos que fazem parte dessa história. É de conhecimento que em Nova Venécia, nas décadas de 1940 e 1950 houve intenso garimpo de pedras semipreciosas como a água marinha e a ametista em localidades como a Fazenda Santa Rita, Serra de Cima ou na Fazenda Veloso. Contudo a procura por riquezas é muito mais antiga e remonta ao século XVI, onde a nossa região foi cenário de aventuras e desventuras na busca por pedras ou metais preciosos. Nesta época surgiu a legenda da “Serra das Esmeraldas” – uma montanha resplandecente cujos relatos afirmavam ter abundantes e preciosas “pedras verdes” – e que acreditavam existir na região onde se encontram as bacias dos rios Doce, Jequitinhonha, São Mateus e Mucuri no que hoje é o nordeste de Minas Gerais.

A primeira entrada foi liderada pelo explorador Martim de Carvalho, que no ano de 1567, por cerca de oito meses, percorreu com aproximadamente 50 portugueses e alguns índios a região entre Porto Seguro e o Rio Cricaré, em busca desta serra ou do tão desejado ouro. Pero de Magalhães Gandavo (um dos portugueses que, segundo Diogo de Vasconcelos, estava nesta expedição) deixou importante registro, onde afirmava que a dificuldade era tanta, e o cansaço e a fome tão intensa, que ao final se alimentavam apenas de sementes de ervas e algumas cobras que encontravam pelos caminhos.

Martim de Carvalho era um fidalgo português da Ilha da Madeira casado com Dona Luiza Dória, de família tradicional portuguesa e nobre na capitania de Porto Seguro. É de lá que nosso explorador sai em busca de sua fortuna. Após cerca de oito meses de intenso cansaço pelo nosso sertão e enfrentando a resistência indígena, Gandavo afirma que Martim, mesmo não encontrando a serra das pedras verdes, conseguiu um punhado de grãos de ouro, porém “finalmente que com os imigos que recrecião e pela gente que adoecia tornarão-se outra vez em almadias por hum rio que se chama Cricaré, onde se perdeu numa cachoeira a canoa em que vinhão os grãos douro que trazião pera mostra (…) e assi desbaratados chegarão a esta Capitania de Porto Seguro.”

Não sabemos a localização exata desta cachoeira, muito menos se a expedição de Martim de Carvalho desceu pelo braço sul (Cricaré) ou braço norte (Cotaxé) do rio que hoje chamamos de São Mateus, mas que, naquele tempo, ainda ostentava somente seu nome indígena: CRICARÉ. Analisando o longo caminho que podem ter percorrido do que hoje é Minas Gerais até o nosso litoral, a citada cachoeira poderia ser uma das muitas que se encontram no nosso rio, inclusive, a “Cachoeira Grande” no centro da nossa cidade. Um mistério que talvez nunca seja revelado.

A “Serra das Esmeraldas” continuou sendo o desejo de muitos exploradores em busca de riquezas. Outras expedições foram realizadas, principalmente no século seguinte, entrando pelo Rio Doce. Ouro e pedras preciosas foram encontrados, mas não a lendária “Serra das Esmeraldas”.

Quanto a Martim de Carvalho, em 1591, foi acusado de “sodomia” que teria sido “praticada no sertão em 1567” e levado a Portugal pela Santa Inquisição. Retornou em 1593 com provisão para ser reintegrado ao cargo de tesoureiro de rendas da Bahia, que depois passou ao cunhado de sua mulher devido ao processo inquisitorial. Também era senhor de um engenho de açúcar em “Caípe”. Provavelmente morreu sonhando com as aventuras de sua expedição, a busca pela Serra das Esmeraldas e os grãos de ouro que perdera em uma das cachoeiras do Rio Cricaré.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
BARREIROS, Eduardo C. Roteiro das Esmeraldas: a bandeira de Fernão Dias Pais. Rio de Janeiro: José Olympio ; Brasília: INL, 1979.
DORIA, Francisco A., BARATA, Carlos, FONSECA, Jorge R., ARAÚJO, Ricardo T., NAZARETH, Gilson. Os Herdeiros do Poder. Rio de Janeiro: Revan, 1994.
FRANCO, Francisco de A. C. Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil: séculos XVI, XVII, XVIII. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1989.
FREIRE, Mário A. A Capitania do Espírito Santo: crônicas da vida capixaba no tempo dos capitães-mores (1535-1822). 2ª ed. rev. e amp. Vitória: Flor&Cultura : Cultural-ES, 2006.
GANDAVO, Pero de M. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1980.
VASCONCELOS, Diogo de. História Antiga das Minas Gerais. 1º vol. 4ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.

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1 COMENTÁRIO

  1. Olá! Meu nome é Fábio e eu sou Historiador.

    Fiz minha dissertação de mestrado sobre a Serra das Esmeraldas e cartografia do Espírito Santo colonial.
    Aos autorescomendo não usar Levy Rocha como bibliografia nesse caso, pois suas informações sobre a Serra e sobre mapas era muito limitada – esse mapa não é de 1612 (há 3 cópias dele, uma de 1616, outra de 1626 e mais uma de 1627), nem é o mais antigo “atlas” de um território americano (o pai de João Teixeira Albernaz era Luis Teixeira, que fez o Roteiro de todos os sinais da costa do Brasil… Cerca de 1590).

    Se puder sugerir ainda, tenho um site que compartilha documentos históricos do Espírito Santo, onde coloquei todos esses mapas e diversos documentos textuais da busca pelas esmeraldas, que juntei no mestrado e no doutorado: historiacapixaba.com

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